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Quadros pintados por paciente são doados ao HCB

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Quadros pintados por paciente são doados ao HCB

O Hospital da Criança de Brasília José Alencar (HCB) recebeu, na segunda-feira (4), um presente repleto de emoção e gratidão: quadros pintados por Giovana Pétala. A família da menina, que faleceu há nove anos, doou ao hospital as telas que ela pintou durante o período de tratamento, realizado no próprio HCB.

“Giovana era uma menina de 11 anos extremamente saudável, esperta, alegre. De repente, apareceu com uma dor na perna, mancando”, diz Rakelene Brandão, mãe da menina. Após a realização de uma ressonância magnética, a criança foi diagnosticada com osteossarcoma e encaminhada ao HCB. “Para nós, o impacto do diagnóstico foi muito grande, um desabamento. Tínhamos que ter força, energia, serenidade para conduzir um momento que não sabíamos onde iria nos levar”, relata o pai de Giovana, Humberto Giordano.

Quadros pintados em casa por paciente do HCB ganharam as paredes do hospital | Fotos: Maria Clara Oliveira/ HCB

Ao longo do tratamento, a menina mostrou a todos do hospital o talento que tinha para as artes. “Ela gostava das atividades que envolviam esforço físico, fez arte circense e era bastante artística: começou a tocar violino aos 6 anos, mas também aprendeu um pouco de violão e escaleta. Nós dois ensaiávamos juntos e ela chegou a tocar em um casamento. Na fase da doença, ela se ocupou com a pintura”, explica o pai.

Rakelene conta que os quadros eram feitos em casa, em um espaço que a família preparou para ser o ateliê de Giovana: “Ela fazia brinquedinhos de biscuit, depois aprendeu a fazer de feltro e levava para o hospital. Era uma coisa que a entretinha. Uma amiga minha, que é artista, veio ensinar a pintar. A Nana se envolvia com essas coisas e o tempo passava; ela tinha o compromisso de levar as peças para o hospital, a vaidade de mostrar aquilo que tinha feito”.

Rakelene Brandão: “A Nana tinha o compromisso de levar as peças para o hospital, a vaidade de mostrar aquilo que tinha feito”

Os pequenos bichinhos de feltro e biscuit que Giovana produziu ao longo do tratamento encontraram donos entre os funcionários do HCB e outras famílias acompanhadas pelo hospital – a própria menina os distribuía à medida que confeccionava os itens. Os quadros, porém, ainda não eram conhecidos fora do círculo familiar e de amigos.

“Coloquei os quadros em uma caixa e me deu um insight: será que é para eu ficar com eles só para mim? Esses eram os primeiros passos que ela estava dando na pintura; ela estava conhecendo e se inspirando. Eu sentia como se os quadros estivessem aprisionados – com a natureza da Giovana, tão iluminada e livre, como eu ia fazer isso?”, reflete Rakelene. Ela cogitou leiloar as obras e doar a verba obtida ao HCB, mas considerou que a doação dos próprios quadros seria uma homenagem mais adequada à memória da filha: “É a memória do tempo que ela estava no hospital. Todo o bem-estar, o acolhimento que era oferecido a ela está neles; essa é a pontinha do iceberg de bondade que recebemos”.

Humberto Giordano tocou o clássico ‘Asa Branca’ em homenagem à filha

“Esses quadros são de todos agora. Acho que vão perpetuar, na vida de cada um que entrar nessa unidade, um pouquinho da história dessa criança que também passou por aqui e que deixou uma pincelada da vida dela para quem quiser conhecer”, concorda Humberto.

Música

A doação dos quadros foi marcada por outra homenagem a Giovana – desta vez, em forma de música. “Pensávamos, como ela, em sair daqui com a cura e dar seguimento à vida. Ela me dizia: ‘pai, nós temos que vir aqui tocar para as crianças, eu no violino e você no violão’”, explica Humberto.

Alguns anos após o falecimento da filha, ele se tornou voluntário da Associação Brasileira de Assistência às Famílias de Crianças Portadoras de Câncer e Hemopatias (Abrace) e, atualmente, realiza o desejo da filha tocando violão na Unidade de Terapia Intensiva (UTI).

“Não posso dizer que não tenho dificuldades nisso, mas também tenho muito prazer e satisfação. No fim das contas, eu sou presenteado por ter a oportunidade de estar aqui. Mesmo com a dificuldade das outras famílias e das outras crianças, posso trazer algumas horas de música para a vida delas e tenho certeza que minha filha vem junto, como aqui está hoje”, garante.

“Essa doação é um ato nobre, que vai servir de inspiração para outras crianças”

Karina Souza, supervisora de enfermagem

Em frente aos quadros de Giovana, Humberto tocou canções clássicas da música brasileira – entre elas, uma homenagem especial: “Escolhi uma música que gostávamos de tocar juntos e que é um clássico do Luiz Gonzaga, Asa Branca. Houve outras, mas essa é marcante; ela gostava muito e executava bem ao violino, de uma forma muito divertida e descontraída”.

Sob os olhares emocionados da família, de profissionais que acompanharam a menina e de outras famílias atendidas pelo HCB, os quadros foram entregues ao hospital para que possam ser expostos. “Mesmo com a dificuldade de um tratamento duro, a Nana era cheia de vida. Tenho muito orgulho de ser mãe dela; se precisasse, faria tudo de novo”, se emociona Rakelene.

Inicialmente dispostos no hall central, os quadros de Giovana chamaram atenção tanto pelo trabalho artístico da menina quanto pela história. A supervisora de enfermagem do Hospital-Dia do HCB, Karina Souza, conta que a jovem artista “era maravilhosa, era um ser de luz; digo que eu é que fui acolhida por ela e construímos uma relação de amizade. Essa doação é um ato nobre, que vai servir de inspiração para outras crianças”. Na opinião dela, os quadros “são cheios de amor, de alegria” e podem incentivar, inclusive, outros talentos que já existem no hospital.

Um desses novos artistas é Pedro Dourado, 15 anos. O jovem desenhista – que retrata, principalmente, temas automobilísticos e paisagens da Bahia (seu estado de origem) – logo se interessou pela exposição. São quadros muito bonitos”, elogiou o pai de Pedro, Gilvânio Dourado.

A diretora de Voluntariado da Abrace, Marli Trindade, também prestigiou a exposição e mostrou a coruja de feltro que recebeu de Giovana quando conheceu a menina, em uma de suas internações. “Ela ficava triste por estar passando por aquilo – mas ficava feliz na hora que fazia esse bichinhos, eram sempre momentos de alegria; Ela era talentosa”, recorda Trindade.

*Com informações do HCB

Fonte: Agência Brasília